O QUE A VIDA QUER É CORAGEM

Lwidge de Oliveira 

Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, Sergipe

Existem assuntos que as palavras são incapazes de exprimir. Sentida através do tempo, a ausência gera feridas incontornáveis e muitas vezes reprimidas, desestabilizando corpos imbuídos por afetos. Circunscrita na dificuldade de lidar com o que é particular, externalizar privações ou confidências significa pôr em perspectiva práticas distintas, muitas vezes com a intenção de contornar o esquecimento. Incapaz de passar despercebida, essa sensação serve como mote para estabelecer cenários paradigmáticos. 

Perpassando por geografias distintas, os quatro filmes escolhidos para representar a sessão transitam nesse terreno movediço, lançando luz sobre as partes elementares da existência subjetiva. É a partir da palavra que “Com Carinho” (2023) desbrava as teias temporais que enlaçam gerações, mais especificamente a relação entre avó e neta; por sua vez, é através da dificuldade para encontrar palavras que “Retorno” (2024) evidencia lacunas primordiais que um pai ausente possui com a filha; já “O Que Fica de Quem Vai” (2024) detalha experiências veladas entre dois homens, ressaltando a dor do luto e o remorso vivido por aqueles que permanecem sem a possibilidade de redimir os próprios sentimentos. Contudo, é sobretudo através da orquestração da imagem que cada obra engendra correspondências entre a memória e instantes fugidios, seja para expor relações desgastadas ou realçar potências afetivas atravessadas por temporalidades distintas.

Como abertura da sessão, “Do Tanto de Telha no Mundo” (2022) especifica essa predisposição nas equivalências entre plano e montagem a fim de registrar a despedida entre Cleide e Leo, mãe e filho respectivamente. Ambientado durante a pandemia de COVID-19 e localizado no interior do Ceará, o filme de Bruno Brasileiro articula gestos em contraposição à dificuldade em reunir coragem para revelar receios e desejos, tanto por medo da recepção quanto por antigos conflitos que ocasionaram o afastamento dessa relação. Seja na proporção do quadro que serve para estreitar os laços ou na amabilidade que Leo demonstra pela música, Brasileiro realiza a partir do registro perceptivo um exercício afetuoso, beneficiado pelo imbricamento entre questões particulares e o modo como podem ser externalizadas. Esse viés formal é justificado pelo apelo narrativo, transposto com eloquência em pouco mais de vinte minutos, evidenciando o que nos desloca enquanto seres humanos, principalmente quando procuramos a verdade diante das faces que amamos.

Menos uma composição de experiências verborrágicas e mais uma reflexão orientada por visualidades, a sessão se vale da constante transmutação da identidade da imagem cinematográfica para comunicar sensações, recorrendo ao subtexto dos gestos e à encenação dentro do plano. No calor dos acontecimentos, as narrativas compõem um mosaico importante para discutir conexões, certificando a utilização do aparelho cinematográfico como agente discursivo. Aqui, nenhum personagem é idealizado, tampouco os diretores se preocupam na busca por respostas e soluções rotineiras; ao contrário, galgam a passos lentos experiências formadas pela relação intrínseca entre o vital e a trivialidade, impulsionando os olhares para as restrições que podem ressignificar trajetos e compor identidades.